Empresas de ônibus investigadas têm 76% das linhas abaixo da meta de viagens em São Paulo
Dados da SPTrans mostram que apenas 24% das 524 linhas operadas por companhias investigadas atingiram o mínimo contratual de viagens; passageiros enfrentam atrasos, espera prolongada e ônibus lotados.
O transporte público da cidade de São Paulo enfrenta novos questionamentos após dados da SPTrans revelarem que a maioria das linhas operadas por empresas investigadas por suspeita de ligação com o crime organizado não vem atingindo o número mínimo de viagens previsto nos contratos com a Prefeitura.
Das 524 linhas analisadas, apenas 24% cumpriram a exigência contratual, que determina a realização de pelo menos 97% das viagens programadas. Isso significa que aproximadamente três em cada quatro linhas ficaram abaixo da meta estabelecida.
O problema afeta diretamente os passageiros. Relatos apontam ônibus que não passam nos horários previstos, longos períodos de espera nos pontos, atrasos e superlotação, especialmente nos horários de maior movimento.
Em um dos exemplos divulgados, a linha 5018-10, que liga o Shopping Interlagos ao Jabaquara, tinha três partidas previstas em um intervalo de 30 minutos, mas apenas uma foi realizada. Levantamento anterior também apontou que a linha deixou de cumprir parcela significativa das viagens previstas ao longo do ano.
Empresas são alvo de investigação
Parte das concessionárias responsáveis pelas linhas está no centro de investigações da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo, que apuram suspeitas de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no sistema de transporte coletivo da capital.
Segundo documentos citados na investigação, autoridades apuram se integrantes ou representantes ligados à organização criminosa teriam influência sobre empresas do setor. As suspeitas ainda estão sob investigação e não representam, por si só, condenação das empresas ou pessoas envolvidas.
A Prefeitura de São Paulo já adotou medidas de intervenção em empresas sob investigação. Em junho, por exemplo, determinou intervenção na Transunião, informando que a administração passaria a ser acompanhada pela SPTrans e por outros órgãos municipais para preservar a continuidade do atendimento aos passageiros.
Passageiro sente o problema no ponto de ônibus
Independentemente das investigações criminais, os números sobre o cumprimento das viagens colocam em discussão a qualidade do serviço oferecido à população e a fiscalização dos contratos de transporte coletivo.
Entre as empresas que não são alvo das investigações, o índice de linhas que atingiram o mínimo contratual foi de 36%, também indicando que o problema de cumprimento das viagens não está restrito somente às companhias investigadas.
Para quem depende diariamente dos ônibus para trabalhar, estudar ou chegar a consultas médicas, cada viagem que deixa de ser realizada pode significar mais espera e maior lotação nas partidas seguintes.
Diante dos números, passageiros cobram da SPTrans e da Prefeitura de São Paulo fiscalização rigorosa, aplicação das medidas previstas nos contratos e ações capazes de garantir que as viagens programadas sejam efetivamente cumpridas.
O caso também reforça a necessidade de transparência sobre os índices de desempenho de cada concessionária, permitindo que a população acompanhe se o serviço pago com recursos públicos está sendo entregue conforme contratado.
O espaço permanece aberto para manifestação da Prefeitura de São Paulo, da SPTrans e das empresas citadas nas investigações.